Resenha: Mistborn: Nascidos da Bruma - O Império Final


          A saga Mistborn: Nascidos da Bruma, escrita por Brandon Sanderson, tem recebido grande atenção do público e da crítica, e talvez seja a mais inovadora e cativante série de fantasia desde Harry Potter. Até o momento, li apenas o primeiro volume, intitulado O Império Final (um empréstimo gentilmente oferecido pela dona do blog). Achei o livro tão interessante e peculiar que resolvi fazer uma resenha a respeito. Irei me esforçar para mantê-la tão sucinta quanto for possível, mas uma avaliação de um livro de mais de 600 páginas nem sempre consegue ser tão curta assim.  

                                      Título: Mistborn: Nascidos da Bruma - O Império Final 
Título Original: Mistborn: The Final Empire 
Autor(a): Brandon Sanderson 
Editora: Leya
Ano: 2014 
Páginas: 608 



O que acontece se o herói da profecia falhar? Descubra em Mistborn! Certa vez, um herói apareceu para salvar o mundo. Um jovem com uma herança misteriosa, que desafiou corajosamente a escuridão que sufocava a Terra. Ele falhou. Desde então, há mil anos, o mundo é um deserto de cinzas e brumas, governado por um imperador imortal conhecido como Senhor Soberano. Todas as revoltas contra ele falharam miseravelmente. Nessa sociedade onde as pessoas são divididas em nobres e skaa – classe social inferior –, Kelsier, um ladrão bastardo, se torna a única pessoa a sobreviver e escapar da prisão brutal do Senhor Soberano, onde ele descobriu ter os poderes alomânticos de um Nascido da Bruma – uma magia misteriosa e proibida. Agora, Kelsier planeja o seu ataque mais ousado: invadir o centro do palácio para descobrir o segredo do poder do Senhor Soberano e destruí-lo. Para ter sucesso, Kel vai depender 
também da determinação de uma heroína improvável, uma menina de rua que precisa aprender a confiar em novos amigos e dominar seus poderes.

Resumo: O Império Final conta a história de Vin, uma garota pobre, ladra e frequentemente vítima de violência, que conhece um grupo de ladrões magicamente dotados, liderados por Kelsier. Esse grupo está elaborando um plano para derrubar o Senhor Soberano de um mundo que passou por uma brutal devastação ambiental.

Política: O mundo imaginado por Sanderson possui uma estrutura política bastante própria, embora seja possível realizar paralelos com a nossa. No estrato superior, existe o Senhor Soberano, uma figura vaidosa e autoritária, que se assemelha a um monarca absolutista, e exerce um papel de líder carismático, militar, religioso e burocrático sobre toda a sociedade. Residente na capital Luthadel na maior parte do tempo, ele teria salvado a humanidade de um perigo chamado As Profundezas um milênio antes do início da história contada pelo livro.
Para exercer seu poder na prática, ele se utiliza de Inquisidores, seres mágicos incrivelmente poderosos, responsáveis por sua guarda, por caçar pessoas que possuem poderes mágicos clandestinamente e pelas execuções dos rebeldes. Existem também os obrigadores, burocratas cujas funções são presenciar e assegurar os contratos firmados e controlar a economia e a burocracia do império.
Abaixo do Senhor Soberano, existem os nobres, responsáveis por manter a economia do império, especialmente pela produção de metais, que são extremamente importantes para a magia desse mundo. Os nobres possuem sangue mágico, o que legitimaria sua alta posição social. No meio urbano, eles possuem alto grau de refinamento sociocultural, realizam bailes e participam ativamente das intrigas e alianças políticas, ainda que, assim como no meio rural, sejam cruéis e violentos, sobretudo contra a classe mais baixa.
Os membros dos estratos inferiores são chamados de skaa. Eles realizam os principais trabalhos produtivos, desde a produção de comida e mineração de metais até a fabricação de itens de luxo para a nobreza. Eles não são considerados donos de si mesmos, e sim propriedades do Senhor Soberano, que pode emprestá-los para os nobres. São usualmente maltratados por nobres e aleatoriamente chacinados se um grupo cometer alguma infração de rebeldia.
Os skaa não possuem sangue mágico e não são vistos como humanos. Os únicos skaa que possuem poderes mágicos são aqueles cujas mães foram vítimas da luxúria de nobres, e eles são caçados pelos Inquisidores. As relações sexuais entre nobres e skaa são normalmente proibidas, a única condição que as torna possível é a execução da mulher skaa logo a seguir. Quando isso não acontece, o nobre é punido. Essa é uma determinação do Senhor Soberano para controlar a população mágica.

Sistema de magia: O sistema de magia é classificado como hard magic, pois é estruturado sobre leis fechadas e bem definidas, de modo que os indivíduos que podem utilizá-la precisam aprender um conjunto de regras complexo. A principal magia aqui é denominada alomancia e se baseia no uso de metais ingeridos. Existem dois tipos de indivíduos alomânticos: os nascidos da bruma, que conseguem utilizar os poderes de todos os metais alomânticos descobertos, e os brumosos, que podem utilizar apenas um desses metais. A complexidade do sistema de magia é certamente um dos pontos mais altos do livro: o leitor vai descobrindo o funcionamento da alomancia juntamente com Vin, a protagonista, que está se descobrindo uma alomântica, o que facilita a compreensão e a imersão na história.

Linguagem: A escrita de Sanderson nesse livro é bastante simples. Não sei se esse é o jeito do autor ou um recurso utilizado para facilitar que o livro alcance sucesso também entre o público adolescente, mas isso é em si uma vantagem e uma desvantagem simultaneamente. Por um lado, a escrita não dificulta a compreensão da intenção do autor através de uma verborragia pretensamente poética, e isso é ótimo. Por outro, ela não chega a ser cativante, o que é quase frustrante, uma vez que a história, os personagens e o sistema de magia o são.

Narrativa: O jeito que a história foi construída se assemelha a um RPG de videogame. A personagem principal é apresentada a um mundo novo e aos demais personagens; segue-se uma série de tarefas fáceis para ensiná-la os principais comandos; iniciam-se as verdadeiras missões, com uma progressão de dificuldade, enquanto a própria protagonista vai se tornando mais forte e habilidosa e o enredo principal vai sendo revelado; confronto final contra o vilão, acompanhado por uma reviravolta inesperada. Mas não há nada de negativo ou previsível nisso. Sanderson construiu tudo com maestria, fazendo com que essa sequência fosse desenrolada com naturalidade e prendendo o leitor.
Os personagens, sobretudo Vin, a protagonista, e Kelsier, o líder dos rebeldes, possuem profundidade. Apesar de cada personagem ser essencial ao desenvolvimento da história, tendo uma função específica, eles não são meras ferramentas narrativas para conduzir artificialmente a história. Personagens como Kelsier, Marsh, Brisa e Ham parecem ganhar vida durante a história – e se tornaram meus favoritos. Até mesmo os antagonistas possuem complexidade, e os desumanizados Inquisidores se tornam seres críveis, com motivações compreensíveis, ainda que moralmente injustificáveis.
Vin é uma jovem mulher que vai percebendo seu próprio valor em um universo bastante machista, no qual as principais lideranças são sempre masculinas e as mulheres, sobretudo as skaa, são constantemente violentadas física, psicológica e sexualmente. Apesar desse universo sexista, Sanderson não parece naturalizar a dominação de gênero, respeitando suas personagens femininas. Entretanto, seria possível que o autor tivesse elaborado melhor a história nesse sentido, uma vez que mulheres são igualmente capazes de possuir e dominar poderes alomânticos, e nada parece estabelecer um motivo para que elas sejam menosprezadas nesse quesito, dentro da lógica interna do livro.

Atenção: o tópico a seguir contém spoilers.

Pontos negativos: o livro todo fala sobre uma revolução popular organizada e liderada por uma pequena vanguarda que possui sangue nobre, mas não os privilégios nobres. Todos são, de alguma forma, filhos abandonados por seus pais. Entretanto, o autor não parece investir muito esforço em apresentar uma discussão ou visão específica sobre vanguardas revolucionárias – como se encontra, por exemplo, em A Revolução dos Bichos, clássico de George Orwell, e em Vingadores Versus X-Men, maxi-saga da Marvel. Não que ele tivesse a obrigação de fazê-lo, mas era uma possibilidade muito interessante e condizente com a história que ele nos conta.
Além disso, a revolução possui um final um pouco conservador. O plano original era derrubar toda a estrutura de classes vigente. Kelsier era um revolucionário radical, como Lênin e Robespierre. Ele não estaria contente até toda a nobreza, classe que se beneficiava da exploração de trabalho skaa, fosse exterminada. Entretanto, a revolução se encerra com o destronamento do Senhor Soberano e com a proclamação de um nobre de uma família extremamente poderosa como rei. Em um diálogo curto, ele convence a vanguarda revolucionária não apenas a não o matar (o que é crível, dentro do desenvolvimento da história), como também a controlar as massas insurgentes e a torná-lo rei, promovendo uma conciliação entre skaa e nobres após o fim do Império Final. É difícil acreditar que pessoas que investiram todos os seus esforços e arriscaram suas próprias vidas por tanto tempo iriam simplesmente permitir que um nobre de uma família tão poderosa se tornasse rei. Isso só me pareceria possível sob uma de duas condições: 1) se esse se tornasse um cargo vazio; ou 2) se a vanguarda percebesse a necessidade de coalizão temporária com a nobreza urbana para derrotar a nobreza rural e os nobres que evadiram da capital do império antes da tomada do castelo. O primeiro caso não se encontra presente no livro, o que nos leva a acreditar que a segunda hipótese seria mais correta, mas isso poderia ter sido mais bem explicado para o leitor.  
Oferecerei o benefício da dúvida ao autor. É possível que essas questões sejam novamente levantadas nas continuações, que ainda não li.

Avaliação final: a despeito dos pontos negativos, o livro é verdadeiramente incrível. O sistema de magia criado é muito interessante, a estrutura política é crível – é até possível traçar paralelos com a nossa –, os personagens são profundos e carismáticos, é possível se identificar com a protagonista, a linguagem é clara e a narrativa flui bem. As cenas de ação também são fantásticas, a descrição faz com que você sinta como se estivesse vendo pessoalmente. Além disso, o final é surpreendentemente satisfatório para um primeiro volume de uma saga. No final, por mais cruel que seja o universo, fiquei com vontade de fazer parte dele, de tão interessante que foi a construção feita por Sanderson. Recomendo a todos que se interessem por sistemas de magia mais complexos e estejam buscando uma aventura duradoura.


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