Resenha: O papel de parede amarelo


          Para estrear as resenhas do meu blog escolhi um livro que ganhei de presente de uma pessoa muito especial (um presente certeiro, diga-se de passagem) e que devorei em pouco tempo. Lembrando que nunca fiz resenha na vida, então ainda estou me aperfeiçoando, mas irei me esforçar para transmitir a ideia do livro da melhor maneira. 
          O papel de parede amarelo é um conto curto mas seu tamanho não prejudica a densidade da mensagem passada. Classificado como terror leve e psicológico, o que o livro tem de mais perturbador na verdade é o fato de que ele reflete uma realidade. Através de metáforas, a autora expressa o papel imposto às mulheres pela sociedade de seu tempo, como boa dona de casa e esposa submissa. Na época, meados do século XIX, o texto foi rejeitado por várias editoras, pois não estava dentro dos padrões de moralidade, até finalmente ser publicado pela New England Magazine. Nos dias de hoje, o livro ganhou atenção e se tornou um sucesso devido a maior evidência das causas feministas na mídia.

Título original: The yellow wallpaper
Autor: Charlotte Perkins Gilman
Editora: José Olympio
Páginas: 110
Ano: 2016

 

          Para tratar a esposa fragilizada, um médico aluga uma fazenda histórica, na tentativa de criar ali um retiro de recuperação emocional. O lugar é encantador, com uma bela mansão colonial e jardins amplos e sombreados. Tudo parece compor um cenário perfeito. Mas algo de muito estranho se passa naquela casa... especialmente no quarto em que o casal se instala, com o sombrio papel de parede amarelo.
 


          Resenha: O livro começa com um casal indo passar um período numa casa afastada das grandes cidades. A protagonista é uma mulher, que não é nomeada, e que se sente o tempo todo triste, doente e exausta. Casada com um médico renomado que, junto com o irmão dela também médico, a diagnostica apenas com uma histeria leve e afirma que o melhor tratamento para ela é o repouso. O atencioso marido toma a iniciativa de levá-la para o campo com o objetivo de afastá-la das preocupações da sociedade e qualquer coisa que perturbe sua paz e a faça piorar. Para seu próprio bem, a proíbe de grandes esforços como trabalhar, receber visitas ou mesmo pensar em sua própria condição. Apesar de não concordar, a mulher acata as decisões do marido afinal ele é um doutor de prestígio e deve saber muito mais sobre o que ela sente do que ela mesma. Porém, às escondidas ela escreve uma espécie de diário externando tudo que pensa e através dele que lemos a história. Chegando na casa de veraneio, ela logo se apaixona pelo quarto do térreo, mas o marido acha melhor que eles se instalem no quarto do andar de cima pois é maior e mais arejado. Apesar de grande, o cômodo parecia ter sido um antigo quarto infantil, visto o papel de parede amarelo desgastado com desenhos irregulares de causar cansaço na vista. Passando tanto tempo no quarto, a protagonista começa a ficar cada vez mais incomodada com o papel de parede e cada vez mais obcecada a decifrar os mistérios de seus desenhos, porém acaba descobrindo muito mais do que esperava.


Atenção: esse tópico contém spoilers.
          Observações:
1.  Nota-se um tratamento impositivo e até mesmo infantilizado que a mulher recebe do marido, sendo muitas vezes sua opinião nem sequer ouvida e suas atitudes motivos de riso. Ele se refere a ela como "menina" e "tolinha" e lhe diz coisas como: "Você é minha fonte de apoio e conforto!" e "Pobrezinha! Pode ficar doente o quanto quiser!" Essas atitudes também ficam claras quando o marido impõe que ela durma num quarto de criança, com grades na janela. E no seguinte trecho: "John é muito atencioso e amável, não permite que eu dê um passo sequer sem instruções especiais. Tenho uma agenda com prescrições para cada hora do dia."

2.  Chama atenção também o menosprezo dado ao mal estar da protagonista, tanto pelo marido quanto pelo próprio irmão, como se fosse uma espécie de frescura. No século XIX, era comum diagnosticar as mulheres com histeria, uma doença psíquica que atinge apenas o sexo feminino, acreditava-se que a causa seria uma perturbação no útero associada a insatisfação sexual. Hoje em dia a doença já está completamente desacreditada.

3.  Fica claro o que a sociedade da época esperava da mulher quando a nossa protagonista demonstra admiração à cunhada, e a elogia dizendo que 
"ela é uma dona de casa primorosa e entusiasmada e não aspira a uma ocupação melhor" sendo essa falta de aspiração um exemplo a ser seguido.

4.  A autora brilhantemente usa a casa e o papel de parede como metáforas para a própria vida e sentimentos da protagonista. Como se as grades não fossem o que realmente 
aprisionam a mulher, mas sim os padrões impostos pela sociedade.


          Curiosidades:

          Essa edição do livro contém muitas informações a respeito da autora e de sua trajetória, e a curiosidade que mais me chamou atenção foi que o texto teria sido escrito inspirado em uma situação que a própria autora viveu. Sendo internada num hospício por histeria, quando na verdade ela sofria dos nervos (um tipo de depressão), por medo de ser abandonada pelo marido ao não se encaixar nos padrões da sociedade, como sua mãe teria sido abandonada pelo seu pai; e de tristeza por ter que abandonar sua carreira e suas aspirações para se dedicar apenas a família como era de costume.
          Outra curiosidade interessante, é que no final do livro uma das últimas coisas que a protagonista diz ao marido é "apesar de você e Jane..", sendo que não há nenhum personagem com esse nome. Não se sabe ao certo se era o verdadeiro nome da irmã de John chamada de Jennie, ou se na verdade era o nome nunca citado da própria protagonista, ou se foi apenas um erro de digitação.

          Conclusão:  Eu adorei o livro! Achei que foi além das minhas expectativas, não imaginava que era um texto tão bem escrito e complexo, que dá margem a diversas interpretações e que requer um olhar mais profundo do leitor. Dá para notar que cada palavra por mais detalhe que pareça foi minimamente pensada e carrega um significado mais além do que se percebe a primeira lida e que me fez parar diversas vezes a leitura para refletir. Recomendo para qualquer pessoa com interesse no feminismo ou na mente humana.



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1 comentários

  1. Adorei o texto todo, deu vontade de ler o livro agora! A foto com o livro e a parede amarela de fundo ficou excelente!

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